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Quarta-feira, Setembro 10, 2003
No quarto escuro oiço os sons da noite. Sinto-me sozinho.
Os minutos passam sem dar por isso. Estou envolvido em ideias que parecem ir pulando, quase desordenadamente, pela minha cabeça. Recordo alguns acontecimentos do dia, para logo depois vaguear por recordações mais antigas. Tão depressa recordo momentos positivos, como me surgem imagens, sons, que preferia não recordar. A noite surge como uma porta aberta para o meu passado e presente. Condeno-me por coisas que fiz, para, momentos depois, sorrir, numa recordação feliz. Por vezes acabo por ser demasiado duro comigo mesmo por coisas que já passaram, não tendo já qualquer relevância. Sentado na cama, apoiado na almofada, observo aquilo que a pouca luz vinda da janela, aquela que a cortina deixa passar. Tudo parece tão diferente quando observado com uma luz ténue. Depressa a minha mente volta a divagar, às vezes tão distante que quase perco a noção de onde estou. A noite mantém-me sozinho, parcialmente afastado do momento presente, perdido no que a memória me serve. Respiro fundo. Sinto o sono a aproximar-se. Lá fora parece que o mundo parou. Continuo a olhar para a janela tapada pelas cortinas. Começo a sentir os olhos pesados, a fecharem-se aos poucos. Sem dar por isso adormeço, num sono sem sonhos. Pouco depois, ainda estando num sono leve, oiço bater à janela. Levanto-me em sobressalto, avançando para a janela, tentando perceber quem estaria a bater, e com que intenções. A medo, afasto um pouco as cortinas e espreito. O medo inicial dissipa-se, embora o meu coração continue um pouco sobressaltado. Destranco a janela e começo a abri-la devagar, de modo a não fazer barulho. No lado de fora, na varanda, um vulto feminino apressa-se a entrar no quarto. Ia começar com perguntas, tentando perceber como é que ela havia ali chegado, e porquê, mas apressou-se a aproximar um dedo dos meus lábios, dando sinal para que me mantivesse em silêncio. O seu olhar estava diferente, sentia-a diferente, agitada, com a respiração alterada. Aproximou-se mais de mim. Nunca a havia sentido tão perto. Senti os seus braços a envolverem-me o corpo e o seu rosto a aproximar-se do meu. Dei por mim a dar os mesmos passos, começando a perder-me nos seus lábios. Sinto-lhe as mãos a percorrerem-me corpo, a minha pele a ficar eléctrica, o beijo a aquecer. Caímos na cama, as roupas voaram. Por minutos fomos um só, dois corpos húmidos, quentes, partilhando tudo, sem pensar, apenas sentindo. Tentei trocar algumas palavras, mas não me deixou, assim como se manteve também em silêncio. Estava agarrada a mim, sentia-a respirar. Comunicávamos com beijos, com o corpo, mantendo sempre a proibição de falar. Acariciava-lhe o rosto, afastando-lhe os cabelos. Num abraço adormeci, para acordar pouco depois, havendo já alguma claridade, ao senti-la levantar-se. Começou-se a vestir. Ao sentir que me mexia, voltou-se, aproximou-se de mim, beijou-me. Fez-me de novo o sinal para que não dissesse nada. Aproximou-se da janela e vi-a sair. Deixei-me estar assim, com olhar perdido, a olhar para a janela, durante algum tempo, recordando aquela noite. Sentira-me sozinho até ela ter aparecido. Agora que tinha ido embora, ainda me sentia mais só. Etiquetas: linhas |