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Domingo, 7 de Dezembro de 2008

O homem que não podia dizer tudo o que lhe passava pela cabeça

Encontrei-o por acaso, numa tarde de Outubro. Já não o via há alguns anos. Não se podia dizer que se notasse a passagem do tempo: estava tal e qual como da última vez que tínhamos falado.

- O tempo já está a arrefecer – comecei por dizer, para tentar manter a conversa depois dos momentos iniciais.

- Sim, pelo menos ainda não hã vento.

Nesse momento, inesperadamente, uma rajada de vento gelado apareceu do nada.

- Tem piada... - comecei por dizer, sendo logo interrompido.

- Bom... – começou o meu amigo – Desde há algum tempo ando a sofrer de uma condição especial... - interrompeu o discurso e começou a brincar com uma pedra utilizando a ponta do sapato – A história é um pouco longa...

Como não tinha nenhum compromisso perguntei-lhe se queria ir até ao café para conversarmos melhor. Ele, que aparentemente também não tinha nada de significativo para fazer, aceitou.

Andámos algumas centenas de metros e entrámos no primeiro café que apareceu. O meu amigo insistiu para que nos sentássemos longe de todas as outras pessoas. Isso intrigou-me... o que será que ele tinha para me dizer?

Uma senhora muito simpática aproximou-se e perguntou-nos o que queríamos. Pedimos ambos café. O meu amigo retirou um guardanapo de papel da guardanapeira que estava no centro da mesa e começou a dobrá-lo ao meio, depois novamente ao meio e assim sucessivamente. Começava a ficar verdadeiramente preocupado. O que teria acontecido para que ele estivesse tão nervoso? Não conseguia tirar os olhos do guardanapo e das voltas que este dava nas mãos dele.

- Dois cafés – a senhora que nos tinha atendido apareceu com o pedido, contando o silêncio. Sorri e agradeci.

O meu colega levantou os olhos do guardanapo.

- Isto é algo complicado de explicar... - começou, quebrando o silêncio. - Não sei se soubeste do meu divórcio.

Realmente não tinha sabido. Nem tal me passaria pela cabeça. Tanto o meu amigo como a esposa sempre me pareceram o casal ideal. Tinham-se conhecido ainda bastante novos e desde então eram praticamente inseparáveis. Incrivelmente nunca os tinha visto sequer discutir, nem uma só vez.

- Há pouco mais de um ano começou-me a acontecer algo... peculiar. - nesta altura deixou de fazer dobras no guardanapo, mantendo-o entre os dedos e olhando-me nos olhos com ar grave - Quando digo alguma coisa, essa coisa acontece.

Esbocei um leve sorriso e franzi as sobrancelhas. Só podia estar a brincar.

- Sei que parece estranho – continuou – mas estou a ser completamente sincero contigo. Não sei como explicar... viste o que aconteceu há bocado? Falei no vento e ele veio.

Toda a história me parecia cada vez mais estranha.

- Então se me disseres que o meu café está frio, apesar da chávena estar quente e do vapor...

- O teu café está frio.

Aproximei a chávena dos lábios e provei... realmente estava frio. Não podia acreditar.

- Agora acreditas em mim?

Fiz sinal à senhora que nos tinha servido e pedi um novo café.

- Como é que isto começou? É inacreditável!

O meu amigo esvaziou os pulmões. Rasgou o pacote de açúcar, despejou-o no café e começou a mexê-lo vagarosamente. Parecia estar a procurar as palavras certas para começar.

- Então quer dizer que o que quer que penses acontece?

- Não, não é assim. Só pensar não chega, tenho que o dizer. Se para além do que digo também tivesse que controlar o que penso, então seria muito mais complicado.

O meu amigo inspirou fundo, sem tirar os olhos da chávena de café.

- Como disse, começou há cerca de um ano, estava eu no trabalho a terminar um relatório qualquer. Passou-me pela cabeça que a minha mulher estava em casa com outro homem. Disse-o ao meu colega do lado, levantei-me e saí apressadamente. Não me perguntei porque raio fui dizer aquilo... corri para casa. Abri a porta devagar, sem fazer ruído e aproximei-me do nosso quarto. Abri a porta e... estava mesmo a acontecer. A partir daí passou-se tudo muito depressa... a minha esposa pedia desculpa... o amante que pegou nas roupas e saiu de casa a correr. A vizinha da frente que a vê-lo nú no corredor a tentar vestir alguma das peças de roupa até eu aparecer-lhe por trás e o tentar agarrar... a partir desse momento tudo o que digo acontece. E parece não querer parar...

Neste momento dei por mim a olhar fixamente para o meu amigo sem saber o que dizer. Ficámos em silêncio durante algum tempo. O meu amigo a olhar para a chávena.

- Já tentei tirar partido desta situação a meu favor, mas... queria apenas que acabasse.

- Não podes simplesmente dizer que esta... - parei por momentos, procurando a palavra certa
– Dizer que esta situação acabou para que deixe de acontecer?

- Já tentei... mas continuou a acontecer.

- Queres então dizer que é algum tipo de maldição – comecei.

- Sim, parece-me que sim... peço-te que não contes a ninguém... é a primeira vez que falo nisto... e... tenho que ir.

Dito isto saiu apressadamente. Fiquei durante algum tempo a olhar para a porta do café, de onde tinha visto o meu amigo sair. Aquela imagem continua a perseguir-me, talvez por nunca mais ter tido notícias dele. Entristece-me imaginá-lo num local vazio, tentando manter-se afastado de qualquer conversa onde possa dizer algo que possa prejudicar alguém. Ou será que depois da nossa conversa tudo voltou ao normal? Acho que nunca vou chegar a saber...

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